Há algum tempo que se interrogava no morro. Sofria e interrogava-se. O seu melhor amigo, um pequeno cão chamado Pastor, morrera semanas antes. Já era velhote, tínha-o há 12 anos. Não era fácil digerir a morte de alguém querido aos 15 anos. Andava há semanas no mesmo; acordava, vestia-se e ia até ao morro pensar no pobre animal.
Até que um dia se fartou da solidão de quem é órfão e terminou com a própria vida. Na sua cabeça, fazia mais sentido ter a companhia do seu cão, ainda que para isso tivesse de morrer, do que visitar todos os dias o espaço que partilhavam. Só as memórias não chegavam.
A viagem até ao Céu era diferente daquilo que tinha imaginado. Não havia nuvens a separar o Céu da Terra. Havia antes aquilo que parecia ser uma pradaria, inclinada, que ele tinha de subir. Era estranhamente parecida com a pradaria onde costumava brincar com o Pastor. Enquanto a subia deparou-se com uma pedra rasa com uma pergunta cravada nela. Perguntava-lhe qual o nome de solteira da sua mãe. Estando ele no Céu, deveriam saber que ele era órfão, criado na rua. Naturalmente não sabia o nome da sua mãe… A pedra fez-lhe cara feia por não receber resposta, mas o rapaz não tinha culpa.
Prosseguindo caminho, a cada vinte passos a pradaria tornava-se um pouco mais íngreme, mas nada que dificultasse muito a subida até ao Céu. Procurava à sua volta mas não vislumbrava pedra alguma. “Se calhar está lá mais em cima”, pensou ele. Subiu, subiu, até que a pradaria parecia quase uma parede. Era impossível subir mais, contudo não havia mais pedra nenhuma com pergunta nenhuma. Não podia ser por falta de atenção, ele foi sempre a olhar para todo o lado. Esperou, esperou, e não encontrou nada. “Só pode estar lá em baixo”, concluiu.
Desceu a pradaria sempre a olhar dum lado para o outro, não fosse a pedra ter-lhe escapado enquanto subia. Depois de muito descer finalmente encontra a pedra. Estava, simultaneamente, feliz por a ter encontrado e chateado por não o ter feito à primeira. Debruça-se sobre ela e lê o que ela pergunta. “Não acredito, é a primeira pedra!”, indignou-se. A pergunta mantinha-se e a ausência de resposta também.
Com as saudades a apertarem, e enquanto teve forças, o rapaz subiu e desceu a pradaria para encontrar a segunda pedra com a segunda pergunta. Como não conseguiu, foi-se recostar à primeira pedra. Fechou os olhos e descansou por instantes. Deixou-se ficar junto à pedra por vários dias, à espera que uma outra surgisse.
Naquilo que julgava ser o início da pradaria viu uma menina de sacola a olhar para o chão. Não conseguia distinguir bem quem era dada a distância, por isso decidiu ir ao seu encontro.
Ao aproximar-se foi percebendo que a menina era senhora e que olhava não para o chão mas mais concretamente para uma pedra. “Aquela pedra não estava ali…”, estranhou o rapaz. Abeirou-se da senhora e esta pediu-lhe que lhe lesse o que dizia na pedra pois ela não sabia ler. “O que procuras?”, respondeu-lhe o rapaz.
A pergunta motivou a conversa entre os dois. Descobriram que a menina que passou a senhora era afinal a mãe do rapaz. Na sacola trazia o Pastor, o motivo do suicídio do rapaz. A mãe terminou a própria vida por remorsos − julgava não ser próprio de uma mãe abandonar um filho, por muitos infortúnios que tenham acontecido. O que é certo é que os mesmos eram inevitáveis, e tanto a mãe como o filho sabiam disso. Ambos terminaram a vida pelo mesmo motivo: não queriam matar a vida, queriam apenas matar a dor.
Falaram, choraram, e perdoaram-se. O Pastor ficou para segundo plano mas não parecia importado, ele viveu toda a sua vida com o rapaz, o rapaz é que não pôde viver assim com a sua mãe. No final das várias conversas que tiveram começaram a surgir do solo da pradaria várias pedras semelhantes àquelas que já existiam. Tendo aprendido a ler com o filho, este fazia questão que fosse ela a ler as perguntas. “O que queres?”, “Para onde queres ir?”, “O que querias ter sido?”. Estranharam as perguntas e não sabiam as respostas. Tirando as respostas às perguntas antigas. O rapaz passou a saber o nome de solteira da mãe e a mãe percebeu que procurava o filho. Queriam ambos o mesmo e esse mesmo era conforto.
Não sabendo porquê, a mãe e o rapaz olharam ao mesmo tempo para o cão e viram na sua coleira um papel velho, com um desenho à frente e rascunhos atrás. “Pus-vos no mesmo sítio, em circunstâncias iguais, para perceberem que o Céu não difere da Terra. As perguntas que aparecem são as mesmas, a diferença é que aqui não têm desculpa para não pensar nas suas respostas. Acolherão todos os que escolheram o que vocês escolheram e que por isso tiveram o mesmo destino”, lia-se nas costas do papel.
Guardaram o papel e recolheram todas as pedras que julgavam ter as perguntas mais importantes. Primeiro individualmente e depois conjuntamente, responderam durante dias a cada uma das perguntas. Lentamente, começaram a surgir por todo o lado pessoas e animais e árvores e plantas. Todas elas passaram pela mesma provação que mãe e filho passaram. Eram agora completas e felizes e todas elas encaravam com bons olhos a tarefa que lhes tinha sido, em tempos e para sempre, atribuída. Era essa a nova vida do rapaz e da mãe − fazer as perguntas a quem chegava e acolher quem lhes respondia.
Até que um dia se fartou da solidão de quem é órfão e terminou com a própria vida. Na sua cabeça, fazia mais sentido ter a companhia do seu cão, ainda que para isso tivesse de morrer, do que visitar todos os dias o espaço que partilhavam. Só as memórias não chegavam.
A viagem até ao Céu era diferente daquilo que tinha imaginado. Não havia nuvens a separar o Céu da Terra. Havia antes aquilo que parecia ser uma pradaria, inclinada, que ele tinha de subir. Era estranhamente parecida com a pradaria onde costumava brincar com o Pastor. Enquanto a subia deparou-se com uma pedra rasa com uma pergunta cravada nela. Perguntava-lhe qual o nome de solteira da sua mãe. Estando ele no Céu, deveriam saber que ele era órfão, criado na rua. Naturalmente não sabia o nome da sua mãe… A pedra fez-lhe cara feia por não receber resposta, mas o rapaz não tinha culpa.
Prosseguindo caminho, a cada vinte passos a pradaria tornava-se um pouco mais íngreme, mas nada que dificultasse muito a subida até ao Céu. Procurava à sua volta mas não vislumbrava pedra alguma. “Se calhar está lá mais em cima”, pensou ele. Subiu, subiu, até que a pradaria parecia quase uma parede. Era impossível subir mais, contudo não havia mais pedra nenhuma com pergunta nenhuma. Não podia ser por falta de atenção, ele foi sempre a olhar para todo o lado. Esperou, esperou, e não encontrou nada. “Só pode estar lá em baixo”, concluiu.
Desceu a pradaria sempre a olhar dum lado para o outro, não fosse a pedra ter-lhe escapado enquanto subia. Depois de muito descer finalmente encontra a pedra. Estava, simultaneamente, feliz por a ter encontrado e chateado por não o ter feito à primeira. Debruça-se sobre ela e lê o que ela pergunta. “Não acredito, é a primeira pedra!”, indignou-se. A pergunta mantinha-se e a ausência de resposta também.
Com as saudades a apertarem, e enquanto teve forças, o rapaz subiu e desceu a pradaria para encontrar a segunda pedra com a segunda pergunta. Como não conseguiu, foi-se recostar à primeira pedra. Fechou os olhos e descansou por instantes. Deixou-se ficar junto à pedra por vários dias, à espera que uma outra surgisse.
Naquilo que julgava ser o início da pradaria viu uma menina de sacola a olhar para o chão. Não conseguia distinguir bem quem era dada a distância, por isso decidiu ir ao seu encontro.
Ao aproximar-se foi percebendo que a menina era senhora e que olhava não para o chão mas mais concretamente para uma pedra. “Aquela pedra não estava ali…”, estranhou o rapaz. Abeirou-se da senhora e esta pediu-lhe que lhe lesse o que dizia na pedra pois ela não sabia ler. “O que procuras?”, respondeu-lhe o rapaz.
A pergunta motivou a conversa entre os dois. Descobriram que a menina que passou a senhora era afinal a mãe do rapaz. Na sacola trazia o Pastor, o motivo do suicídio do rapaz. A mãe terminou a própria vida por remorsos − julgava não ser próprio de uma mãe abandonar um filho, por muitos infortúnios que tenham acontecido. O que é certo é que os mesmos eram inevitáveis, e tanto a mãe como o filho sabiam disso. Ambos terminaram a vida pelo mesmo motivo: não queriam matar a vida, queriam apenas matar a dor.
Falaram, choraram, e perdoaram-se. O Pastor ficou para segundo plano mas não parecia importado, ele viveu toda a sua vida com o rapaz, o rapaz é que não pôde viver assim com a sua mãe. No final das várias conversas que tiveram começaram a surgir do solo da pradaria várias pedras semelhantes àquelas que já existiam. Tendo aprendido a ler com o filho, este fazia questão que fosse ela a ler as perguntas. “O que queres?”, “Para onde queres ir?”, “O que querias ter sido?”. Estranharam as perguntas e não sabiam as respostas. Tirando as respostas às perguntas antigas. O rapaz passou a saber o nome de solteira da mãe e a mãe percebeu que procurava o filho. Queriam ambos o mesmo e esse mesmo era conforto.
Não sabendo porquê, a mãe e o rapaz olharam ao mesmo tempo para o cão e viram na sua coleira um papel velho, com um desenho à frente e rascunhos atrás. “Pus-vos no mesmo sítio, em circunstâncias iguais, para perceberem que o Céu não difere da Terra. As perguntas que aparecem são as mesmas, a diferença é que aqui não têm desculpa para não pensar nas suas respostas. Acolherão todos os que escolheram o que vocês escolheram e que por isso tiveram o mesmo destino”, lia-se nas costas do papel.
Guardaram o papel e recolheram todas as pedras que julgavam ter as perguntas mais importantes. Primeiro individualmente e depois conjuntamente, responderam durante dias a cada uma das perguntas. Lentamente, começaram a surgir por todo o lado pessoas e animais e árvores e plantas. Todas elas passaram pela mesma provação que mãe e filho passaram. Eram agora completas e felizes e todas elas encaravam com bons olhos a tarefa que lhes tinha sido, em tempos e para sempre, atribuída. Era essa a nova vida do rapaz e da mãe − fazer as perguntas a quem chegava e acolher quem lhes respondia.